O Método Paulo Freire e o Entendimento dos Professores Coordenadores na Educação de Jovens e Adultos (EJA)

Artigos

LASAKOSWITSCK, Ronaldo (1)
MELO, Diego Mubarack de (2)
SILVEIRA, Amélia (3)

Resumo: Considerando que o professor coordenador é um profissional que deve apresentar mais do que um conhecimento teórico pertinente à área pedagógica, sendo antes de tudo um sujeito ativo, inserido em um contexto sócio-político-histórico-cultural, nada mais coerente de que seja ele o agente integrador entre o projeto pedagógico e a gestão administrativa da escola. Este profissional deve ter a percepção e a sensibilidade para identificar as necessidades de alunos, professores, diretores, e da família, sendo o medidor dos métodos e das ações referentes à gestão escolar. O objeto de estudo será a qualidade do ensino ou o ensino de qualidade da escola. Com esta perspectiva, o artigo objetiva levantar o entendimento dos professores coordenadores que desempenham funções na Educação de Jovens e Adultos (EJA) sobre as práticas das propostas do método desenvolvido por Paulo Freire, para alfabetizar e ensinar jovens e adultos. Este profissional foi sujeito social e elemento-chave para esta investigação visto que contribui para o processo educacional, pedagógico e o administrativo. O delineamento da pesquisa foi exploratória e qualitativa, amparada em entrevista semi-estruturada para a coleta de dados, e a técnica de análise de conteúdo para interpretação dos significados dos dados coletados, procurando entender se este profissional conhece os ideários de Paulo Freire, após a interrupção do projeto de educação de jovens e adultos iniciados nos anos sessenta. A EJA de hoje ainda se ajusta às necessidades da erradicação do analfabetismo de nossa sociedade, e por isso guarda relação com os ensinamentos de Paulo Freire. Este estudo pretende, a partir deste entendimento inicial, contribuir para identificação de casos nos EJA, onde o método Paulo Freire esteja sendo adotado e possam ser apresentadas as avaliações dos resultados.

1 INTRODUÇÃO

O coordenador pedagógico é um profissional que vai além de um conhecimento teórico pertinente à área pedagógica. Este profissional, por força da legislação estadual, SE nº 88/2007, Art. 2º, precisa ter a percepção e a sensibilidade de identificar as necessidades de alunos, professores, diretores, e também, da família. O alvo será sempre a qualidade do ensino ou o ensino de qualidade dependendo dos agentes com quem se efetuará a troca dos elementos ou dos conhecimentos. Ele contribui, desta forma, com o processo educacional, pedagógico e o administrativo, já que o novo perfil deste coordenador deverá consumir além dos dois primeiros processos a arte do gestor, já que este procedimento “não se trata mais de administrar pessoas, mas administrar com pessoas” (CHIAVENATO, 2004). Pode-se dizer que a afirmação vai ao encontro do aforismo freiriano que sugere “pensando criticamente sobre a prática de ontem é que se pode melhorar a próxima prática” (FREIRE, 2002).
Durante o processo de formação acadêmica, o coordenador pedagógico torna-se um profissional por meio de duas possibilidades: atendendo a um curso superior direcionado aos discentes de determinado curso de Pedagogia, ou, sendo “portador de diploma em curso de licenciatura plena” (SE nº88/2007, Art. 4º).
Coordenar do lat. coordinare, significa ligar, ajuntar, organizar, arranjar. Coordenação, do lat. tardio coordenatione nos passa a ideia de: mediar, ligar, articular um trabalho em andamento. Procurar unir, dar um sentido, uma articulação a algo que está sendo feito individualmente. Mesmo que originado em uma época muito antiga, a palavra é fiel à sua etimologia. O efeito de seu prefixo “co” que significa ‘junto’ com o radical temático verbal “ordena” atribui um significado incontestável à atribuição do profissional que assume a função da coordenação.
O coordenador pedagógico é antes de tudo um sujeito ativo, inserido em um contexto sócio-político-histórico-cultural, e por isso, nada mais coerente que ele seja o agente integrador entre o projeto pedagógico e a gestão administrativa da escola.
Entende-se que toda a teoria e amparo das leis não são suficientes para a formação holística deste profissional. Nesta linha de pensamento concebem-se os preâmbulos de Paulo Freire no processo de ensino-aprendizagem para a (re)construção do conhecimento daqueles que já são detentores de conhecimentos e aprendizagens sociais internalizadas e apreendidas pela convivência e pelas experiências sociais de outrora.
O coordenador pedagógico divide em diversas facetas suas atribuições, e atua em distintas instituições de ensino,
Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), questiona-se se o coordenador pedagógico conhece os ideários de Paulo Freire após cinquenta anos da interrupção do projeto de educação de jovens e adultos iniciados nos anos sessenta. Segundo Brandão (1981), “É difícil encontrar alguém que esteja ligado de algum modo com a educação, como movimentos populares de agora, e que não tenha lido os seus escritos e não conheça as suas ideias. No entanto, fora um ou outro, ninguém conhece a prática do seu método de alfabetização”.
Brandão (1981) ainda complementa dizendo que, “Na revista Estudos Universitários, nº 4, onde pela primeira vez aparecem as ideias e o método da equipe e Paulo Freire em Pernambuco, o artigo escrito por Aurenice Cardoso e que fala da prática do trabalho de alfabetizar com o método, é o último de uma série sobre o assunto.” Já que nos dias um de abril de mil novecentos e sessenta e quatro foi declarado que os projetos de educação de jovens e adultos nomeados como Movimento de Educação de Base (MEB) e sua cartilha de alfabetização, fora denunciada como “perigosamente subversiva” (BRANDÃO, 1981). Por isso, a maioria dos documentos, materiais didáticos e outros bens foram exterminados bem como os Movimentos e seus planos de multiplicação pelo país.

2 OS MOVIMENTOS POPULARES E A CONSTRUÇÃO DA METODOLOGIA DE PAULO FREIRE

O arcabouço da proposta metodológica freiriana, para os vários vindouros movimentos populares, abre-se na região nordeste do Brasil.
Havia uma equipe de professores nordestinos no Serviço de Extensão Universitária da Universidade Federal de Pernambuco. Alguns deles eram também gente do Movimento de Cultura Popular do Recife, o primeiro que se fez no Brasil, na aurora dos anos 60. Na aurora do tempo em que, coletivamente, pela única vez alguma educação no Brasil foi criativa e sonhou que poderia servir para libertar o homem, mais do que, apenas, para ensiná-lo, torná-lo “doméstico” . (BRANDÃO, 1981)
Dos primeiros cinco alfabetizandos que participaram deste movimento experimental em uma casa na periferia de Recife, somente três finalizaram o processo com um resultado positivo, demonstrando que o método validava a proposta de alfabetização por meio do contexto do próprio trabalho do aprendiz. Angicos e Mossoró, no Rio Grande do Norte, e João Pessoa, na Paraíba, foram os palcos das primeiras experiências daquela nova era do círculo da cultura em um processo quantitativo. O movimento se espalha rapidamente para o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Foi o tempo da criação de vários movimentos populares observando-se a eficácia do método de Paulo Freire. A prova científica vinha com o sucesso da alfabetização de trezentos trabalhadores em quarenta e cinco dias. Tanto a opinião pública, quanto o governo, se impressionaram com os resultados, e por isso, o Governo Federal, liderado pelo presidente João Goulart, decidiu aplicar o projeto de educação popular em todo o território nacional.
E foi assim que, entre junho de 1963 e março de 1964, foram realizados cursos de formação de coordenadores na maior parte das Capitais dos Estados brasileiros – no Estado da Guanabara se inscreveram mais de 6.000 pessoas; igualmente criaram-se cursos nos Estados do Rio Grande do Norte, São Paulo, Bahia, Sergipe e Rio Grande do Sul, que agrupavam vários milhares de pessoas. (BRANDÃO, 1981)
Em 1964, havia um planejamento para ativação de vinte mil Círculos de Cultura que seriam capazes de dar formação para mais de dois milhões de alunos no mesmo período. Ação muito necessária em um país que a taxa de analfabetismo era de 39,7% em pessoas de quinze anos ou mais. (IBGE, Censo Demográfico de 1900 a 2000). No entanto, no mesmo ano foi deflagrada a Revolução de 64, sob o comando dos militares e do então Presidente João Goulart. Dentre várias interferências políticas houve a dissolução do projeto de educação para adultos com o pretexto de que as práticas eram de cunho comunista e subversivo. Professores, coordenadores e Paulo Freire foram perseguidos, sendo que ele foi preso e mais tarde exilado por dezoito anos. O método foi radicalmente abortado.
Em reconhecimento do problema do alto índice de analfabetismo no Brasil, em 1967, o governo cria o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) que tinha por objetivo “conduzir a pessoa humana a adquirir técnicas de leitura, escrita e cálculo como meio de integrá-la a sua comunidade, permitindo melhores condições de vida” (LEI nº. 5.397). Porém, não há manifestações de interesse metodológico na forma condução do curso, pois não havia um método definido para a aplicação da cartilha única elaborada pelo governo. Este cenário irá permanecer durante o período do golpe militar, e avançar até 1985 quando o projeto da Fundação Educar teve a oportunidade de subsidiar experiências inovadoras e em seu curto tempo de existência no campo de educação de jovens e adultos, pois eles tinham como princípios filosóficos o legado de Paulo Freire.
A EJA de hoje ainda se ajusta às necessidades da erradicação do analfabetismo de nossa sociedade, e por isso, desenvolve materiais didáticos e de treinamentos metodológicos específicos para os vários níveis de aprendizado do jovem-adulto, equiparando-se aos anos escolares regulares.

2.1 PRESSUPOSTOS DO MÉTODO DE PAULO FREIRE

De acordo com o dicionarista Houaiss (2013), a primeira definição da palavra método é “procedimento, técnica ou meio de se fazer alguma coisa, esp. de acordo com um plano”, e secundariamente complementa com “processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc.” No entanto, Freire, em entrevista concedida para Nilcéia Lemos Pelandré (1993), não entende que seu procedimento simplesmente encaixe-se nas definições:
Eu preferia dizer que não tenho método. O que eu tinha, quando muito jovem, há 30 anos ou 40 anos, não importa o tempo, era a curiosidade de um lado e o compromisso político do outro, em face dos renegados, dos negados, dos proibidos de ler a palavra, relendo o mundo. O que eu tentei fazer e continuo hoje, foi ter uma compreensão que eu chamaria de crítica ou de dialética da prática educativa, dentro da qual, necessariamente, há uma certa metodologia, um certo método, que eu prefiro dizer que é método de conhecer e não um método de ensinar (PELANDRÉ, 1998).
O método pode sugerir uma sistematização metodológica para organizar e implementar as experiências na concepção da Educação Popular porque “desencadeia processos formativos, além de qualificar o desenvolvimento da própria experiência”. (MACHADO; PALUDO, 2010)
Assim, a proposição da metodologia e do método na realização do trabalho popular requer a compreensão de que a educação, ou a “ação cultural para a liberdade”, envolve o campo cognitivo e estético, mas parte e retorna ao âmbito político e social; daí o conceito de práxis, como movimento articulador do processo prática – teoria – prática que se estende indefinidamente e indica a “reflexão e ação incidindo sobre as estruturas a serem transformadas” (FREIRE, 2003, p. 122).
Este ato tem por objetivo incentivar a sobrepujar a consciência pueril para a consciência crítica transformando os educando em agentes reflexivos e responsáveis por suas articulações. Nas primeiras experiências do método realizadas no nordeste do país, assim como em outros lugares onde foi adotado o método, as salas de aula se transformaram em fóruns de debate, denominados “Círculos de Cultura”. Neles, por meio do diálogo, os alfabetizandos aprendiam a ler as letras e o mundo e a escrever a palavra e também a sua própria história. (MACHADO; PALUDO, 2010)

A proposta de Freire preconizava o Estudo da Realidade (fala do educando) e a Organização dos Dados (fala do educador). Nesse processo surgem os Temas Geradores, advieram da problematização da prática de vida dos educandos. Os conteúdos de ensino são decorrências de uma metodologia dialógica. Cada pessoa, cada grupo envolvido na ação pedagógica dispõe em si próprio, ainda que de forma rudimentar, dos conteúdos necessários para o início do dialogismo. O importante não é transmitir conteúdos específicos, mas estimular uma nova configuração de relação com a experiência vivida. Por outro lado, a transmissão de conteúdos estruturados fora do contexto social do educando é considerada “invasão cultural” ou “depósito de informações” porque não insurge do saber popular.
Quando o solitário criador de uma cartilha de alfabetização escolhe as palavras-guia para o ensino da leitura, ele lança mão de critérios puramente linguísticos que submete aos pedagógicos. Pode até ser que use critérios afetivos, mas sempre eles serão os seus, pessoais e, para os alunos-alfabetizandos, arbitrários. Por isso, palavras como: Eva, Ivo, ovo, ave, sapato, são tão universais quando vazias. E, na verdade, elas nada precisam dizer nem evocar, porque tradicionalmente alfabetizar tem sido considerado como um trabalho mecânico de ensino de uma habilidade necessária, mas neutra. Uma espécie de mágica que vira mania, ato coletivo compulsivo com que se aprende pelo esforço do simples repetir sem refletir. (BRANDÃO, 1981)
Segundo Freire, a alfabetização, o ato educativo deve ser sempre um ato de recriação, de re-significação de significados (FEITOSA, 1999), por isso é primordial entender os princípios que constituem o método.
Princípio 1: Politicidade do ato educativo. Não existe educação neutra, logo não há a indissociação da construção dos processos de aprendizagem da leitura e da escrita do processo de politização;
Princípio 2: Dialogicidade do ato educativo. Para Freire, a base da pedagogia é o diálogo. A relação pedagógica necessita ser, acima de tudo, uma relação dialógica, sempre em busca de um humanismo nas relações entre homens e mulheres.
A dialogicidade, para Paulo Freire, está ancorada no tripé educador-educando-objeto do conhecimento . A indissociabilidade entre essas três “categorias gnosiológicas” é um princípio presente no Método a partir da busca do conteúdo programático. O diálogo entre elas começa antes da situação pedagógica propriamente dita. A pesquisa do universo vocabular, das condições de vida dos educandos é um instrumento que aproxima educador-educando-objeto do conhecimento numa relação de justaposição, entendendo-se essa justaposição como atitude democrática, conscientizadora, libertadora, daí dialógica. (FEITOSA, 1999)
Para Freire, citado por Brandão (1981) “a cartilha é um saber abstrato, pré-fabricado e imposto. Uma espécie de roupa de tamanho único que serve pra todo mundo e pra ninguém”. Entende-se que o educador não pode trazer pronto o seu mundo, seu saber, seu método. A educação deve ser um ato solidário e coletivo, desde a captação das dos temas geradores para as palavras geradoras que serão usadas para alfabetizar e problematizar uma discussão. Logo, as palavras não servirão somente como instrumento para leitura da língua, elas servirão para releitura da realidade social, tornado educadores-educandos ou educandos-educadores agentes ativos de suas jornadas, experiências e aprendizagens.

2.2 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NA ATUALIDADE: REFLEXOS DO MÉTODO DE PAULO FREIRE

A educação para adultos, termo conhecido hoje como Andragogia – a ciência que estuda como adultos aprendem já era praticada pelos grandes mestres da Antiguidade: Aristóteles, Sócrates, Platão, Cícero. As aulas eram direcionadas para jovens e adultos e suas aplicações eram pensadas em modos diferentes, desde sua organização física até a prática. Observava-se que o aprendizado era um processo de investigação mental, e não um simples processo de transmissão de conteúdo e de aquisição passiva. Por isso, hoje se sabe que chineses e hebreus inventaram o método de caso, os gregos, os diálogos socráticos, os romanos, os desafios que faziam seus participantes a tomar decisões e darem suporte a elas.
Em 1833, o educador alemão, Alexander Kaap foi o primeiro a descrever o método utilizado por Platão, referenciando-se ao termo Andragogia. Malcolm Knowles, educador americano, tornou este termo conhecido no mundo depois de seus estudos e lançamentos de livros com o foco de ensino e aprendizagem de adultos. (SMITH, 1999) Dentre as teorias andragógicas analisadas por Knowles, está a de Eduard Lindeman intutulada The meaning of adult Education (1926). Lindeman afirma que a educação para adultos deve ser feita por meio de situações e não de disciplinas, e o currículo deve ser construídos das necessidades e interesses dos alunos. Ele visualiza a educação como a vida, e a vida toda é aprendizagem, portanto, a educação não tem fim. O educador não dicotomizou a educação de adultos versus a educação de jovens, mas a educação convencional versus a educação convencional.
Um dos princípios que ambos educadores, Lindeman e Knowles, acreditavam e desenvolveram seus estudos é: a educação deveria observar a experiência de vida individual do aprendiz como sua fonte mais rica para a pesquisa. Nesta fala observa-se a interseção direta com as propostas de Paulo Freire quando ele especifica que o aprendiz não é uma tabula rasa que deve ser moldada pelo educador, mas que deve, sim, buscar a fala do aprendiz para moldar os currículos dialógicos das aulas.

 

3 MÉTODO E TÉCNICAS DE PESQUISA

A pesquisa exploratória, qualitativa, foi realizada na Escola Estadual Oswaldo Catalano situada no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo Capital durante uma Orientação Técnica realizada por Professores Coordenadores do Núcleo Pedagógico (PCNP) e Supervisores de Ensino da Diretoria de Ensino Região Leste 5 que acontece periodicamente com Professores Coordenadores (PC) e Professores Coordenadores de Apoio à Gestão Pedagógica (PCAGP) do Ensino Fundamental II e Ensino Médio das Escolas Estaduais. Esta escola foi escolhida como contexto de estudo de maneira intencional, por acessibilidade.
Neste dia estavam presentes PCs do Ensino Fundamental II E Ensino Médio, totalizando setenta e três pessoas no momento da coleta que totalizam a população da pesquisa. Orientados pelos Professores Coordenadores do Núcleo Pedagógico (PCNP) e por dois Supervisores Regionais da Diretoria Leste 5.
O processo de coleta de dados transcorreu da seguinte forma: fazendo uso da palavra, os pesquisadores e líder do GRUGEC esclareceram sobre os objetivos da pesquisa que é tomar conhecimento, a partir de coordenadores pedagógicos, sobre o entendimento e a adocão do Método de Alfabetização desenvolvido por Paulo Freire. Em seguida deixaram claro que a amostra intencional, por acessibilidade, deveria emergir desta população de coordenadores, uma vez que está é representativa daqueles que tem conhecimento sobre o método Paulo Freire, e aqueles respondentes que concordavam em preencher o formulário de coleta de dados. Este formulário estava dividido em duas partes: a identificação do professor coordenador e o conhecimento sobre o método Paulo Freire.
A primeira parte do questionário se constituiu na identificação do professor com questões relacionadas a sua formação (licenciatura, graduação e pós-graduação), tempo de serviço como professor, PC e PCAGP, categoria profissional (efetivo, estável ou contratado), área de atuação (ensino fundamental I, II, ensino médio, centro estadual de educação de jovens e adultos, fundação casa, unidades prisionais ou unidade experimental de saúde), gênero (masculino ou feminino) e faixa etária.
A segunda parte abrangeu questões referentes ao entendimento, conhecimento e a utilização do método Paulo Freire para Educação de Jovens e Adultos, por parte dos professores e coordenadores presentes.

 

4 RESULTADOS DA PESQUISA

A população pesquisada foi composta de mulheres (90%) e homens (10%), sendo que a faixa etária varia entre 22 a acima de 55 anos. Eles apresentam a seguinte formação: 100% são graduados, 100% licenciados, 60% com pós-graduação e 1% com mestrado. O tempo de serviço como professor altera-se entre cinco a vinte e sete anos; e como coordenador pedagógico, de um mês a sete anos de experiência.
Depois de aplicada as questões constantes no roteiro de entrevista, optou-se por sua apresentação de forma sintematizada, por meio de um quadro, sendo este entendido como uma matriz de pontos-chave. Conforme indica Bardin (1977), a leitura atenta deste quadro traz contribuições para o estudo do tema, e facilita a continuidade do estudo.

Quadro 01 – Unidades de Significados identificado nas respostas dos questionários.

1. Você tem conhecimento sobre o Método Paulo Freire para a Educação de Jovens e Adultos? Se sim, pode resumir o que você conhece?
Unidade de Significado Significado das respostas
US1 Necessidade do educando
US2 Educando faz seu próprio caminho
US3 Educando segue caminho previamente construído
US4 Educando tem seu papel de sujeito da história
US5 O método parte do conhecimento do aluno
US6 Método de auto-adaptação de estratégia do aluno
US7 Método de auto-adaptação de necessidade do aluno
US8 Método baseado por exploração do conhecimento do aluno
US9 Método de libertação pela Educação
US10 Método da Pedagogia do Oprimido
US11 Método contrário ao método tradicional
US12 Método de sondagem do conhecimento
US13 Método de conhecimento significativo
US14 Método de inclusão social
2. Em que momento da sua vida acadêmica você tomou conhecimento do Método Paulo Freire?
US15 Licenciatura
US16 Licenciatura – Pedagogia
US17 Licenciatura – Filosofia
US18 Licenciatura – Letras
US19 Licenciatura – Disciplinas diversas
US20 Curso de Magistério
US21 Pós Graduação – Gestão Escolar
US22 Pós Graduação – Coordenação Pedagógica
US23 Através de Professor Coordenador
US24 Projeto MOBRAL
US25 Movimentos Populares
3. Em sua atividade como Coordenador você utiliza as Abordagens preconizadas por Paulo Freire? Se sim, relate suas experiências.
US26 Diálogo em ATPC/Reuniões Pedagógicas
US27 Diálogo em Formações Docentes
US28 Diálogo com professores
US29 Reflexão com professores
US30 Conhecimento de vida
US31 Mudanças de método de aprendizado
US32 Resistência de mudança de métodos
4. Você obteve resultados com a utilização das Abordagens preconizadas por Paulo Freire, em sua trajetória como Coordenador? Se sim, descreva sucintamente.
US33 Conversas informais
US34 Importância de participação de alunos em reuniões pedagógicas
US35 Importância de participação de docentes em projetos
US36 Respeito à cultura e as diferenças
US37 Grau de proficiências dos educandos
US38 Participação da comunidade na escola
US39 Superar desafios escolares
US40 Diminuição da evasão escolar
5. Como você avalia a adoção do Método Paulo Freire para a Educação de Jovens e Adultos? Considera importante este Método na atualidade? Por quê?
US41 Valorização do aluno
US42 Valorização da diversidade do aluno
US43 Conscientização do mundo e realidade social do educando
US44 Conscientização dos problemas do cotidiano do educando
US45 Método utilizado mesclado com outros
US46 Método de Alfabetização
US47 Método inovador para Educação de Jovens e Alunos
US48 Método multicultural

Fonte: Dados de Pesquisa de 2013.

Após a pré-análise se realizou a organização da análise. Aqui foram operacionalizadas e sistematizadas as ideias iniciais estabelecendo os procedimentos a serem seguidos. A fase da exploração do material consiste, basicamente, de operações de codificação do material (BARDIN, 1977).
Na sequência do processo de categorização ocorreu o processo denominado tratamento dos resultados. Cabe ressaltar que, por se tratar de uma proposta de pesquisa qualitativa, também foram seguidas as recomendações de Richardson (1999). Para este autor, na pesquisa qualitativa a preocupação não está em numerar ou medir variáveis, mas em identificar tais variáveis. Desta codificação surgiram as categorias, sub-categorias e unidades de significados apresentadas na quadro 02, de forma sintética.

Quadro 02 – Categorias, sub-categorias e unidades de significados que emergiram da análise de conteúdo (Bardin, 1977).

Categorias Sub-Categorias Unidades de Significados
C1: Método US5 a US14, US31, US 23, US 37, US45 a US48
C2: Educando US1 a US4, US41 a US44
C3: Formação do coordenador SC1: Formal US15 a US22
SC2: Informal US23 a US25
C4: Conhecimento SC1: Diálogo US26 a US28
SC2: Reflexão US29, US30, US34 a US36
C5: Desafios US38 a US40

Os resultados categorizados indicam que o método Paulo Freire pode ser interpretado como contendo as dimensões método ( o método em si), educando (formação do coordenador – formal e informal), conhecimento sobre o método (diálogo e reflexão) e desafio.

5 CONCLUSÃO
As conclusões preliminares conduzem ao entendimento de que os respondentes se caracterizam como sendo predominantemente do gênero feminino, com idade que varia entre 22 e acima de 55 anos. São formados tanto no bacharelato como em licenciatura. Mais da metade tem curso de pós-graduação, no nível de especialização, e um no nível de mestrado. Correspondendo à variação da idade, também o tempo de serviço dos respondentes se encontra entre cinco a vinte e sete anos. E, no desempenho da função como coordenador pedagógico, da mesma forma, de um mês à sete anos de experiência.
Quanto ao método proconizado por Paulo Freire, os respondentes entendem que diferente dos métodos ‘tradicionais’, o método analisado tem a preocupação como a educando, dando-lhe além da formação acadêmica, uma visão de mundo, uma formação do conhecimento, este entendimento se faz pressente entre os sujeitos sociais desta pesquisa. O método enfatiza a inserção do homem como sujeito social que constrói sua história.
Quanto aos conhecimentos sobre o método Paulo Freire os respondentes declaram que, durante a formação profissional, em curso de graduação e de licenciatura, ou em cursos pós-graduação, especialmente os de aperfeiçoamento, adquiriram as noções atuais. Desta maneira, para alguns, as abordagens e técnicas utilizadas no método de Paulo Freire estão no dia a dia dos coordenadores pedagógicos, com o propósito de fomentar o diálogo e a reflexão entre os pares, e também, estimular o aperfeiçoamento profissional,
Os respondentes acreditam que o método é atual e importante. Se configura como ferramenta voltada para a inclusão social por meio da alfabetização, e dá a conscientização do papel social de cada sujeito no mundo globalizado.
Sendo este estudo inicial, este está sendo desenvolvido no sentido de sua complementação, estando previsto o envolvimento de um maior numero de respondentes, no sentido de ampliar os resultados. Da mesma forma, entendendo que a EJA de hoje ainda se ajusta às necessidades da erradicação do analfabetismo de nossa sociedade, e por isso guarda relação com os ensinamentos de Paulo Freire, este estudo pretende, em sua continuidade, contribuir para identificação de casos nos EJA, onde o método Paulo Freire esteja sendo adotado, e onde possam ser apresentadas as avaliações desses resultados.

 

REFERÊNCIAS

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1977.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é o método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 1981.
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FREIRE, Paulo. A ação cultural para a liberdade: e outros escritos. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
FREIRE, Paulo. A pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 2000.
KNOWLES, Malcolm S. The adult learner: the definitive classic in adult education and human resource development. Houston, Texas: Gulf Publishing Company. 5 ed. 1998. p. 35.
MAFRA, Jason. A conectividade do presente com a história em Freire e Foucault. En publicación: Paulo Freire. Contribuciones para la pedagogía. Moacir Godotti, Margarita Victoria Gomez, Jason Mafra, Anderson Fernandes de Alencar (comp.). CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires. Enero 2008.
MELO, Cristiane Silva; IVASHITA, Simone Burioli. Os movimentos de cultura popular e as contribuições de Paulo freire para a alfabetização e letramento. Disponível em: http://alb.com.br/arquivomorto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem02/COLE_4148.pdf. Acesso em: 02 abr. 2013.
RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa Social: Métodos e Técnicas. São Paulo: Atlas, 1999.
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SHOR, Ira; FREIRE, Paulo. Medo e ousadia: O cotidiano do professor. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1986.
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SMITH, M. K. (1996; 1999) Andragogy: the encyclopaedia of informal education. Disponível em: <http://www.infed.org/lifelonglearning/b-andra.htm>. Acesso em: 06 abr. 2013.


[1] Graduado em Letras. Professor de Ensino Superior. Universidades Integradas do Estado de São Paulo (UNIESP). Mestre em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE), Linha de Pesquisa e de Intervenção em Gestão Educacional (LIPIGES). Universidade Nove de Julho (UNINOVE). São Paulo, SP. E.mail: lasza@uol.com.br

[2] Graduado em Matemática. Professor PEB II (Matemática). Rede Estadual de Educação do Estado de São Paulo.Mestre em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE), Linha de Pesquisa e de Intervenção em Gestão Educacional (LIPIGES). Universidade Nove de Julho (UNINOVE).São Paulo, SP. E.mail: diego.mubarack@gamil.com

[3] Doutor em Ciências da Comunicação. Professor no Programa de Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE). Lider da Linha de Pesquisa e de Intervenção em Gestão Educacional (LIPIGES). Lider do Grupo de Pesquisas em Gestão Educacional Contemporânea (GRUGEC). Universidade Nove de Julho (UNINOVE). São Paulo, SP. E.mail: amelias@uninove.br

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